Othello foi representada pela primeira vez a 1 de Novembro de 1604. É considerada a mais íntima das tragédias shakespereanas no sentido em que não trata da queda dum rei ou da desgraça duma nação, da agonia dum príncipe ou das contradições entre o amor e o dever; trata sim, do fim trágico de um enlace amoroso e de como um marido se torna o assassino da sua esposa. Shakespeare concentrou-se nos pormenores: a intimidade erótica da atracção mútua entre Othello e Desdémona; as particularidades sinistras da táctica de Iago; a ironia trágica de Desdémona intercedendo por Cássio caído em desgraça junto de Othello; o incidente do lenço casualmente perdido; o assassínio de Desdémona e o suicídio de Othello. A grandeza moral de Othello, a inocência de Desdémona e a perversidade de Iago são os motores do drama que, inexoravelmente, desde o bem-estar inicial, passando pelas crises, se dirige para a catástrofe final.
Ficha Artística e Técnica Texto: William Shakespeare Tradução: Yvette Centeno Encenação: Joaquim Benite Cenário: Jean-Guy Lecat Desenho de Luz: José Carlos Nascimento Figurinos: Sónia Benite Assistente de Encenação: Victor Gonçalves Intérpretes: André Gomes, Francisco Costa, Joana Fartaria, João Jonas, Luís Vicente, Mário Spencer, Marques D'Arede, Miguel Martins, Rita Cruz, Teresa Gafeira e João Evaristo ou Carlos Ramos Contra Regra: Ana Gabriel Montagem: Montijo, Horta Técnicos de Cena: Didier Francisco, Isidro Brás e Luís Sousa Direcção de Montagem: Carlos Galvão Produção: Paulo Mendes Costureiros: José Carlos e Maria João Santos Fotografia: João Jonas, J. Frade e Telma Veríssimo Assistente de Produção/Relações Públicas : Ana Aleixo Direcção de Produção: Homero Flor, Luís Vicente e Victor Gonçalves
Da Imprensa:
"Clareza é a dimensão mais evidente desta encenação, e também da versão portuguesa de Yvette Centeno. Joaquim Benite foi cuidadoso na construção de cada uma das personagens, no discurso de cada uma, na complexidade de um diálogo cujo entendimento só começa a ser possível se correcção, sobriedade e inteligência conduzirem toda a representação." João Carneiro, Expresso, 03/12/2005
"O meticuloso contraste de registos - brilhante no maquiavelismo farsesco do Iago de Luís Vicente -, a transparência da locução e a gestão rigorosa de tão contrárias emoções permitem a cada actor uma superior inteligência da teia shakespeariana, não reduzida aqui a um olhar engajado, mas indexada ao processo dramático que a estrutura: a tortuosa e destrutiva manipulação que o despeito de Iago concebe (veja-se a trabalhada evolução do Otelo de Mário Spencer, a expressiva sobriedade da Desdémona de Joana Fartaria ou o malicioso feminismo da Emília de Teresa Gafeira)." Miguel-Pedro Quadrio, Diário de Notícias, 11/12/2005
"Luís Vicente impressiona quando leva para cena a personificação da perversidade, mostrando permanentemente a máscara da intriga. Melhor ainda que Calígula, Luís Vicente atingiu, neste trabalho, a sua maioridade como actor.
[...] José Carlos Nascimento conseguiu um excelente trabalho ao criar as atmosferas psicológicas adequadas ao texto, enobrecendo o cenário. A estética do espectáculo, que procurou trazer a acção para o cenário da Segunda Guerra Mundial, situou todo o conflito para uma dimensão mais próxima do espectador.
[...] Quanto mais não seja pela interpretação de Luís Vicente, "Othello" é um trabalho que merece ser visto. Quanto mais não fosse pelo encontro de Joaquim Benite e Luís Vicente, directores das companhias envolvidas, este trabalho valeu a pena ser feito. Quanto mais não fosse para Faro Capital da Cultura ter, finalmente, um espectáculo que, não existiu só para glória dos seus programadores mas para benefício da região, este espectáculo tinha de ter sido feito." Ana Oliveira, Jornal do Algarve, 01/12/2005
"O espectáculo Othello, de W. Shakespeare, encenado por Joaquim Benite, que estreou em Novembro passado noTeatro Lethes, numa co- produção da ACTA com a CTA- Companhia de Teatro de Almada, foi nomeado para o"Globo de Ouro", na categoria de Teatro/Melhor Espectáculo.
(...) Luís Vicente, que em Othello foi o intérprete de lago, está nomeado para o "Globo de Ouro" na Categoria deTeatro/Melhor Actor. A voz de Loulé, 15/05/2006
"Joaquim Benite escolheu um belíssimo teatro "em Ferradura" à italiana, construído por um arquitecto italiano, e transformado pelo cenógrafo Jean-Guy Lecat - habitual colaborador de encenadores tais como Peter Brook, LucaRonconi, Jean-Louis Barrault -, e que mais do cenógrafo deve ser definido como um arquitecto do espaço teatral.
(...) O encenador escolheu também a funcional tradução de Yvette K. Centeno, despida de artíficios e bastantedirecta, para criar "o acontecimento Othello", transfigurando a ópera numa tragédia de câmara, que evolui debaixodos olhos curiosos do público.
(...) Disto isto, devemos descer ao pormenor para sublinhar que o Othello de Mário Spencer, jovem actor negrocom um porte físico de General da Marinha, no seu primeiro papel de protagonista, se deixou tomar em demasiapelo sentimento proveniente do ciúme, oferecendo-nos uma personagem marcada frequentemente pelo choro. Luís Vicente desenhou um lago de multíplices valências e ambiguidades, de grande eficácia interpretativa: um lago deusex machina dos factos trágicos disseminados na tragédia." Mário Mattia Giorgetti, Sipario
"Ao situar a acção durante a Primeira Guerra Mundial, Joaquim Benite sublinha a justeza e a recorrência históricadesta peça, acentuando o espaço fechado masculino e militar e interessando-se mais pela noção de humilhação e deferida narcísica do que pelo ciúme amoroso.
(...) Benite apresenta-nos um Othelo quase estereotipado, atormentado por um ciúme cego (mais devido às suas origens africanas do que à sua condição masculina) e subtilmente interpretado pelo actor angolano Mário Spencer; uma Desdémona (Joana Fartaria) ténue, frágil, ao mesmo tempo dócil e obstinada, que quase sem alarde assume a sua paixão e a sua morte. A fala que pode ser vista como um panfleto precursor do feminismo é dita por Emília, esposa de lago e confidente de Desdémona (mostrando Teresa Gafeira no seu papel uma bela criatividade).
(...)Iago é a personagem mais complexa. (...) A interpretação de Luís Vicente, director da ACTA, que já em 1993 tinha interpretado este papel, transmite ao público, com virtuosismo, uma empatia ambígua com a personagem, expondo com finura a argumentação duma preferência de tipo "social" a que teria direito para legitimar a astúcia ea calúnia. Põe assim complexamente em confronto os dois mundos encarnados por Othello e Desdémona." Le Monde Diplomatique, 01/01/2006